A arte de entreter

Os utilizadores de videojogos fazem questão de se manter informados sobre tudo o que rodeia o universo do título que adquiriram. Pudera: estão a despedir-se mensalmente de parte dos seus suados niqueis. E quando determinado MMORPG não consegue oferecer uma experiência de jogo cativante e divertida, os seus utilizadores simplesmente cancelam a subscrição.

jugglingOs utilizadores de videojogos fazem questão de se manter informados sobre tudo o que rodeia o universo do título que adquiriram. Pudera: estão a despedir-se mensalmente de parte dos seus suados niqueis. E quando determinado MMORPG não consegue oferecer uma experiência de jogo cativante e divertida, os seus utilizadores simplesmente cancelam a subscrição.

É unânime a crítica que afirma que a indústria dos videojogos não é atenciosa e justa com os seus consumidores. Jogos desinspirados, com defeitos técnicos e por vezes inacabados, sempre foram uma realidade. Na pré-Internet, era comum as editoras colocarem determinado jogo à venda e lavarem daí as mãos. Por muito mau que  determinado trabalho fosse, a maioria dos jogadores – por preguiça ou falta de meios – não se dava ao trabalho de reclamar formalmente, ou até de reter com exactidão o nome dos autores, que por sua vez voltavam à carga após algum tempo, com mais jogos preguiçosos.
A crescente popularidade dos jogos online de aventura em universo persistente (MMORPGs) está finalmente a responsabilizar os produtores e as editoras e a levar até eles as consequências dos seus actos. Agora, os jogadores fazem questão de se manter informados sobre tudo o que rodeia o universo do título que adquiriram. Pudera: estão a despedir-se mensalmente de parte dos seus suados níqueis. E quando determinado MMORPG não consegue oferecer uma experiência de jogo cativante e divertida, os seus utilizadores simplesmente cancelam a subscrição. Veja-se o caso de Asheron’s Call 2, que no fim de 2005 encerrou os seus servidores de vez. O título da Turbine simplesmente não conseguiu reunir argumentos que atraíssem jogadores suficientes para tornar o projecto viável.

Se este cão se chamar Turbine, aqueles ratos estão lixados
Se este cão se chamar Turbine, aqueles ratos estão lixados

Os jogadores querem entretenimento e conseguir oferecê-lo sempre foi o calcanhar de Aquiles dos MMORPGs. É como se nunca nenhuma produtora se tivesse lembrado de delinear uma estratégia séria para recrear os seus clientes. Basta visitar fóruns de títulos como The Matrix Online, Everquest 2, ou Star Wars: Galaxies e ler os relatos das comunidades para perceber que para cada elogio publicado existem dez queixas. No caso de Star Wars: Galaxies, a Sony Online Entertainment (SOE), provavelmente cansada de dar pequenos tiros no pé, decidiu modificar radicalmente o jogo e torná-lo mais acessível aos recém-chegados. A maioria dos jogadores viu o fruto do seu longo trabalho ser deitado ao lixo, com a inviabilização de certas habilidades, profissões e objectos raros. Os gritos irados da comunidade (já descontente com os muitos problemas que o jogo sempre apresentou), inundou de reclamações centenas de fóruns, blogues e sites.

Mas a alteração mais idiota preconizada pela SOE foi a de focar a acção no jogo a solo. Quem paga Internet de banda larga, compra um jogo de role-play apenas jogável online e paga uma subscrição mensal para a jogar, maioritariamente, sozinho? Findos os choros, a reacção de uma enorme fatia desta comunidade foi abandonar de vez o jogo. Fiz questão de ir ver com os meus próprios olhos o preço que a SOE está a pagar por ter cuspido no prato e ignorado a sua comunidade de fãs. Entrevistei inúmeros utilizadores em servidores europeus e americanos e a maioria admitiu que o jogo estava pior e que estavam apenas à espera que as suas subscrições findassem. Muitos dos seus colegas já tinha partido. Uns não pretendem jogar mais MMORPGs, outros foram em busca de uma obra do género que merecesse o seu dinheiro.

nhan23l

Ao que parece, a tal “obra de preferência” está a ser o jogo da Blizzard, World Of Warcraft (WOW). Após anos a observar a concorrência, a esperar, a ser gozada, e a esperar mais um pouco, a Blizzard riu por último. Segundo os seus autores, WOW tem actualmente mais de cinco milhões de clientes [11,5 milhões no final de Dezembro de 2008]. Podem não ser clientes totalmente satisfeitos – afinal, isso nem sequer existe – mas parecem estar suficientemente divertidos para pagar a mensalidade e ainda recomendar o produto aos seus amigos.

A maioria daqueles que confeccionam MMORPGs esquece-se que milhares de pessoas vivem estes universos com a intensidade com que vivem a vida real. Que nascem, crescem e morrem neles. Que criam laços de amizade, conversam sobre a vida, regozijam com as vitórias e choram as derrotas. Como disse uma vez um dos directores da SOE, Gordon Walton, “as experiências online são reais. O coração não consegue distinguir a diferença entre ser magoado online ou no mundo real”.

É preciso que as editoras se apercebam que os cifrões que procuram estão escondidos na satisfação dos seus clientes. Que o digam os jogadores de WOW e a conta bancária da Blizzard.

Gonçalo Brito

Nota: Este artigo de opinião foi originalmente publicado na revista Mega Score nº125 de Agosto de 2005.

2 thoughts on “A arte de entreter

  1. Infelizmente este é um problema que se estende além dos MMORG. A mediania e a repetição de formulas perpetua-se para gáudio das produtoras preguiçosas.

    Hoje os jogos são produtos conceptualmente idealizados por criativos sovinas, e todos os rasgos de originalidade como Mirror’s Edge por ex, levam porrada da critica leviana e aparentemente bipolar, pois ora se queixa da falta de originalidade, ora castiga por ser demasiado original/diferente, ridículo.

    Como consumidor informado e gamer veterano, sinto-me enganado quando são atribuídas perfect scores a produtos de segunda categoria, e questiono-me se a generalidade dos jornalistas que opinam sobre os games, estarão minimamente qualificados (paixão pelos games) de modo a tecer um juízo fundamentado. Isto porque a generalidade das ditas “analises” são um mero texto da tanga com doses de hype destilado em propaganda, e com pitadas de uma predilecção dúbia/discutível.

    Os únicos jogos que me arrebataram recentemente estão na ainda alive and kicking PS2, Ico, Shadow of the Colossus e Metal Gear Solid 3, na dita nova geração ainda está para surgir o tal jogo que cheire realmente a novo.

    Assassin’s Creed e Mirro’s Edge ofereceram pelo menos mecânicas novas, mas a pouca fé das produtoras revela-se pela sensação de produto inacabado. Ou terá sido olho na sequela?!

    Tenho esperança no Alan Wake, when it’s done…

    Belo artigo GB!

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