Este artigo de opinião figura na revista Mega Score nº115 de Abril de 2005 e, embora desactualizado, ajuda a compreender o percurso do preço dos videojogos.


Pescadinha de rabo na boca

Preços demasiado elevados para as nossas carteiras, produtoras e editoras que fecham as portas a um ritmo alucinante e, claro, a velha história das solas gastas: o nível de pirataria de videojogos (e não só) em Portugal é dos mais elevados da Europa. Em que medida é o nosso país influenciado por tudo isto?
É indiscutível que pagar um sétimo do salário mínimo nacional por um videojogo é incomportável, mas é também importante não esquecer que Portugal é um país com um mercado pequeno (por pequeno entenda-se pobre). As editoras dos chamados países desenvolvidos produzem videojogos cujos orçamentos se adaptam à economia do seu país. Quando o produto final é vendido aos retalhistas assume um preço idêntico para todo o mundo, preço esse que obviamente não é acertado (reduzido) em função do país ao qual estão a vender. É isso mesmo. Um dos nossos maiores inimigos é o poder de compra, ridiculamente inferior ao de um francês ou inglês (que por sua vez também se queixam dos seus preços. Se eles soubessem…).
Por outro lado, é quase impossível para o jogador português ter uma percepção correcta da evolução dos preços na indústria, simplesmente porque os jogos originais só começaram a surgir em terras lusas no início da década de 90. Enquanto por cá comprávamos a pirataria baratinha que se vendia livremente em lojas de electrodomésticos e afins (jogos para ZX Spectrum a 300 escudos por exemplo), nos Estados Unidos os jogadores pagavam, já desde 1977, 40 dólares por unidade (cerca de 30 euros). Quando finalmente nos deparámos com as obras originais (e com os seus preços bem mais elevados que antes), contraímos um estigma que havia de durar até hoje. Com a massificação da banda larga e o surgimento dos programas peer to peer, o consumidor português, ávido de borlas e com pouco dinheiro no bolso, encontrou o seu oásis. Mas enquanto uns aproveitam esta forma ilegal para uso pessoal ou apenas para dilatar a sua cultura geral, muitos deixam-se dominar pela ganância, roubando as obras alheias apenas com o repreensível intuito de as vender.

É claro que parte da situação seria parcialmente resolvida com o decréscimo dos preços dos produtos originais, mas isso implicaria reduzir a margens de lucro – algo que não vai acontecer. Depois, a inexistência de lojas especializadas e uma mentalidade colectiva ultrapassada, incapaz de qualificar um videojogo como um produto cultural, apenas fomenta uma crescente desorganização.
E agora tudo promete piorar: o preço dos videojogos vai aumentar. Ainda que tal não tenha sido formalmente anunciado, a verdade é que muitos dos gigantes da indústria desejam arduamente tal agravamento (o que na prática é quase o mesmo). Aliás, o consumidor tem vindo a ser experimentado, de há um tempo a esta parte, por aquele tipo de jogos que são um sucesso comercial à partida (os chamados títulos AAA). No PC, o hype de nomes como Half-Life 2 ou The Sims 2 foi desculpa suficiente para cobrar mais cinco ou dez euros que o normal. Já nas consolas, o ano novo viu mesmo um aumento nos preços, com blockbusters como Grand Theft Auto: San Andreas a atingirem uns escandalosos 70 euros. Isto sem referir os “pacotes de coleccionador”, que muitas vezes não passam de uma caixa repleta de pequenas ofertas inúteis que desculpam o agravamento do preço.  

A propósito, o vice-presidente da Sony Computer Entertainment America (SCEA), Jack Tretton, afirmou recentemente que “não existem razões para que os consumidores não paguem mais pelos jogos”. Discursando perante uma plateia de personalidades da indústria, no evento D.I.C.E., Tretton justificou esta declaração com a necessidade que as editoras têm de cobrir os cada vez maiores custos de produção. Antes de vendermos a alma, um euro de cada vez, para darmos um beijinho ao senhor Tretton, procuremos compreender as razões das suas alegações. 
O sucesso comercial dos referidos blockbusters encarecidos é um indicador claro de que os consumidores estão preparados para os aumentos. Por outro lado, a pirataria, bem como as dezenas de jogos que todos os anos levam empresas à falência devido a fracas vendas, fazem repensar o actual esquema de preços. É que a maioria das editoras apenas tem lucro substancial com um ou dois títulos por ano. Os restantes costumam mesmo dar prejuízo. Qual a lógica por trás desta política económica é algo que me ultrapassa (Update: É uma questão de probabilidades: em quanto mais jogos as editoras apostarem, mais hipótese têm de que pelo menos um seja bem sucedido), mas a verdade é que Tretton não está sozinho na sua “chamada às armas”. Activision, Electronic Arts e até o Bank Of America Securities ambicionam os referidos aumentos, alegando que os preços dos jogos já resistem à inflação há demasiado tempo.
Esta é uma guerra que ninguém parece querer perder. Embora por um lado as editoras se queixem da pirataria, por outro não tomam medidas palpáveis para a impedir. Para já é apenas certo que a constante subida do preço dos jogos originais irá aumentar cada vez mais o fosso entre os consumidores portugueses e os produtos em questão. O cariz elitista que caracterizava os videojogos aquando do seu surgimento vai acabar por se impor novamente nos países mais pobres, e Portugal não será excepção.

Gonçalo Brito

Escrevi este ensaio para a secção MMOs da revista Hype! nº1, mas por questões editoriais e de espaço, apenas parte dele acabou por figurar na revista.
O que fiz foi pegar no livro Viagens Na Minha Terra, de Almeida Garrett, e cruzá-lo com as minhas próprias histórias, vividas no jogo para múltiplos jogadores num universo persistente online (MMORPG), The Lord Of The Rings Online.

Viagens na Minha Terra Média

Capitulo primeiro
De como o autor deste erudito relato se resolveu a viajar na sua Terra Média; e como resolveu imortalizar-se escrevendo estas suas viagens. – Parte para Angmar. – Chega aos campos de Southern Bree, encontra-se com alguns colegas, inicia a sua caminhada para a Old Forest; e o que aí lhe sucede.

Vivo na grandiosa e turbulenta Lisboa.
Muitas vezes, sufocado pelas noites de estio, viajo até à minha janela para me enganar com uns verdes de árvores que ali vegetam por entre os entulhos. Nunca escrevi sobre tal viagem pois a minha pena, pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei-de dar-lho. Vou nada menos do que à Terra Média, a Angmar – a terra dos Nazgûl. E protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há-de fazer crónica.
São seis da manhã nas terras ideadas por Tolkien. Desperto para a grandiosa e turbulenta Bree no interior da estalagem Prancing Pony, onde recentemente Aragorn salvou o Hobbit Frodo, e seus companheiros, dos Nazgûl: os reis que agora são escravos. A fama do sítio faz com que esteja apinhado dia e noite por gentalha de todos os géneros e níveis. Mesmo a esta hora há quem encoste um copo aos lábios, embale um Alaúde ou um Clarinete e até quem baile ao som das melodias desafinadas pela latência dos servidores. Nada lhes interessa o mundo fora das muralhas de Bree. Preciso de sair daqui. Limpar os pulmões. E depois inundá-los com o fino sabor do meu cachimbo. Os Hobbits plantam alguns dos melhores tabacos de toda a Terra Média e eu sou um dos seus mais fervorosos adepto.
Não tenho cavalo e já estou atrasado para o meu encontro. Permito-me alguns segundos de inveja do cavaleiro que passa e desato a correr em direcção aos campos de Southern Bree.
Chego muito a horas, envergonhei os mais madrugadores dos meus companheiros de viagem, que todos se prezam mais matutinos homens que eu. À minha volta, terras rasas amarelas e verdes relembram-me a minha lezíria ribatejana. Sou interrompido por uma cavalgada de passos: são os meus companheiros de viajem. O sino dá o último rebate. Partimos.

Capitulo Segundo
Chega à Old Forest e não a acha. – Trabalha-se por explicar este fenómeno pasmoso. – Belo rasgo de estilo romântico.

Isto é que é a Old Forest?
Não pode ser.
Esta, aquela antiga selva temida quase religiosamente como bosque druidico? Onde está a floresta primordial que cobria quase toda a área de Eriador? Mudou-se com certeza. É sabido que os Hobbits destruíram parte deste sagrado bosque para edificar os seus buracos, mas nunca esperei encontrá-lo de tal forma reduzido.
Curiosamente, no seu âmago, a Old Forest continua a ser tão assustadora como sempre. Árvores oscilam onde o vento não sopra e morcegos, lobos e ursos espreitam por entre a ténue luz que a ramagem deixa passar.
Abandonámos com celeridade a ex-glória verdejante em direcção ao Shire. Mas a cada passo do caminho, ao chão estive eu para me atirar, como uma criança amuada de desapontamento.

Capitulo Terceiro
Pernoitada no Shire. Ninguém faz festa como os provincianos. Reflexões importantes sobre a minha terra natal. Memórias de bailaricos.

Á medida que penetramos nas férteis terras do Shire e inalamos o campestre aroma composto por estrume e erva, o meu compartimento de memórias entra em ebulição. Tal como o Cartaxo, a terra onde cresci, o Shire é asseado e alegre – como um agradável bairro suburbano de uma cidade.
Rumámos para a maior cidade do Shire, Michel Delving, pois sabíamos que estava em festa. Pensámos estar demasiado cansados para farras, mas ao vermos a população local e visitantes reunidos na praça principal, não resistimos. Tal como manda a tradição, as crianças correm para trás e para diante entretidas pelos seus jogos de Escondidas e Apanhada, e os graúdos servem vinho, pão e libertam foguetes coloridos. No coreto, um grupo de Hobbits, com um baterista anão, cuida de que não falte música. Fui novamente invadido por um sentimento de nostalgia. Há muito, muito tempo, também eu animei as hostes saloias de Portugal. O bairrismo das festas populares é um poderoso ritual: as pessoas estão felizes por ali estar, e os trovadores absorvem um forte sentimento de satisfação por isso. É claro que por vezes as coisas correm mal, como quando a populaça tentou invadir os camarins onde eu e a minha a minha banda nos encontrávamos, para nos obrigar a tocar mais… uma forma diferente de pedir um encore.
Em Michel Delving tudo correu pelo melhor, especialmente para nós que comemos, bebemos e dançámos toda a noite.

Capitulo quarto
Abandonado, fala da natureza enigmática dos Elfos.

O povo tem sempre melhor e mais puro gosto do que essa escumalha descorada que anda ao de cima das populações e que se chama a si mesma por excelência da sociedade. Foi essa a sensação com que fiquei sobre o meu convívio com os Elfos, em Ered Luin. Digo “fiquei” pois os meus citadinos colegas de Bree decidiram que já tinham tido a sua dose de provincianismo e abandonaram-me. Regressaram à sua grandiosa e turbulenta casa.
Azar o deles. Ficaram sem saber que em Ered Luin, amiúde se sente um ambiente prosaico e burguês, chato, vulgar e sensabor, assoprado numa tentativa ao grandioso do mau gosto. Ficaram sem saber que o Elfos assim são, mas que não o são por mal. Ficaram sem conhecer a esotérica e inesquecível arquitectura Élfica. Azar o deles.

Capitulo quinto
Reflexões importantes sobre os cosmopolitas e os que pensam que o são. Final surpreendente que será relembrado e repetido por anos vindouros… bom, pelo menos até chegar a próxima geração de consolas… ok, pronto, quem tiver pachorra para o ler até ao fim poderá até achar que é razoável.

Sei o que o leitor está a pensar. Está a olhar para o mapa e a dizer: «então mas se ele vai para Angmar, porque segue no sentido contrário?». Saiba o prezado leitor que, como você, assim pensa uma grande parte dos alfacinhas e “Breeanos”: «Se tenho tudo tão perto, porquê sair de Lisboa e ir conhecer o país?». Se passam a sua vida entre o Chiado, a Rua do Ouro, o Teatro de São Carlos e o Algarve, como hão-de alargar a esfera dos seus conhecimentos, desenvolver o espírito e chegar à altura do século? Dirijo-me para Angmar não pelo caminho mais curto, mas pelo caminho mais culto.
E por isso prefiro cessar o meu relato e deixar o resto do caminho em aberto. Não vá algum aventureiro citadino e comodista deixar de explorar esta Terra Média por fazer dele as memórias que afinal são minhas.

Gonçalo Brito, na Terra Média


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